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The American Adventure | Entrevista com Ricardo Jorge

Criado em 18-02-2014

The American Adventure – Parte 1

Aproveitando a presença do nosso atleta Ricardo Jorge “no outro lado do Atlântico” vamos, ao longo da sua estadia nos Estados Unidos da América, procurar ficar a conhecer uma realidade que é, como poderão constatar, muito diferente da portuguesa.

Sem mais demoras, fiquem com o relato inicial desta aventura, sob a forma de entrevista. Nesta primeira parte ficamos a conhecer, entre outras coisas, o porquê da opção pelos Estados Unidos e um pouco da vida universitária americana. A segunda parte da entrevista será publicada posteriormente. É um testemunho que vale a pena não perder…

Clube Ténis Tavira: Ricardo, antes de mais, obrigado por teres acedido de imediato ao nosso pedido para nos falares sobre esta experiência. Nesta primeira pergunta queria que nos apresentasses, em breves palavras, o sítio onde estás e o que estás a fazer.

Ricardo Jorge: O prazer é todo meu! Eu estou a estudar Economia na Universidade de Mississippi, mais conhecida por Ole Miss. A universidade tem cerca de 17.000 alunos e está situada a norte do estado de Mississippi, numa pequena cidade chamada Oxford. Também estou integrado na equipa de ténis da universidade, que é uma das melhores do país. Em 2013 acabou o ano em 10º no ranking nacional e este ano tencionamos lutar pelo título.

CTT: Voltando um pouco atrás no tempo, o que é te levou a procurar uma oportunidade no estrangeiro? O que é que falta em Portugal para que não consideres estudar/treinar no nosso país? E já agora, e no seguimento da pergunta anterior, porquê a opção específica dos Estados Unidos?

RJ: Na verdade, sempre tive em mente estudar numa universidade americana mas, para além de dispendioso, viver no estrangeiro nunca me agradou muito, por isso, sempre deixei essa ideia para segundo plano.

Ao acabar o 12º ano, deparei-me com uma situação muito comum para os jogadores de ténis em Portugal. Apenas tinha duas opções se quisesse ficar em Portugal. A mais provável seria ir para a universidade e consequentemente abandonar a ideia de tentar ser profissional porque é impossível conciliar boas notas com treinos bi-diários. A menos provável seria tentar seguir uma carreira profissional, em que teria de deixar de estudar e investir uma pequena fortuna a viajar pelo mundo fora à conquista de pontos ATP. Na realidade, apenas havia uma hipótese porque onde está essa pequena fortuna?

Como o meu desejo era continuar a jogar, e em Portugal as oportunidades são escassas, decidi que tinha de explorar outros “mundos”. Porquê os Estados Unidos? Os EUA têm um sistema universitário muito direcionado para o desporto, quer seja ténis, futebol ou golfe. Em Ole Miss temos 9 desportos diferentes.

No caso do ténis, o sistema está assente num campeonato em que as universidades jogam entre si num primeiro momento. Depois as 16 equipas que melhores resultados apresentarem avançam para a fase final onde jogarão um torneio que decidirá a universidade campeã. Mas como existem mais de 500 universidades com equipas de ténis, a competitividade é imensa. Ao ver este sistema, em que poderia estudar e continuar a competir, decidi que ir para os EUA seria a melhor opção.

CTT: Explica-nos, resumidamente, o processo até chegares à Universidade que frequentas atualmente.

RJ: Como não tinha muita experiencia no assunto, decidi consultar uma empresa (America International) que faz colocações de atletas nessas universidades. Depois de uma primeira reunião onde me explicaram tudo sobre “college tennis” decidi assinar um contrato com eles para me ajudarem a encontrar a melhor escola para mim. O processo foi muito demorado, praticamente um ano. Tive de realizar vários testes de inglês e de preparar o meu curriculum desportivo e académico para a empresa poder enviar para todas as universidades.

Tive várias boas propostas mas a de Ole Miss foi definitivamente a mais aliciante. Em termos académicos é uma das 100 melhores do país e uma das 10 melhores no ténis. O facto de me terem oferecido uma viagem para poder visitar a escola, conhecer as instalações e a equipa técnica, foi decisivo na minha escolha.

As universidades americanas para além de bolsas académicas, também oferecem bolsas desportivas. Devido aos meus resultados escolares e desportivos serem elevados, tive direito a ambas as bolsas que me possibilitam que não tenha quaisquer encargos financeiros. Estas bolsas não estão disponíveis para toda a gente. É necessário ter uma média académica elevada (não sei ao concreto a nota, varia de escola para escola) e/ou um nível desportivo altíssimo para poder competir nesta “liga”. O número 1 da minha equipa está dentro do top 300 ATP, por isso, o nível é bastante forte.

CTT: Como é feita a articulação entre estudos e treinos? Existe alguma carga horária (ao nível do treino) diária limite?

RJ: Existe uma carga horária limite que são 4 horas por dia, 20 horas por semana. A NCAA (entidade que organiza competições regionais e nacionais entre as universidades do país) limita todos os jogadores a esta regra para que todos estejam em igualdade de circunstâncias e para não haver “baldas” na escola.

O meu horário e o dos meus colegas estão feitos para termos aulas de manhã e treino (técnico e físico) pela tarde. Caso haja algum impedimento de treinar às horas marcadas, quer seja um teste, reunião, consulta, o treinador arranja sempre uma solução e o treino é remarcado para outra hora. Se existir algum conflito entre um treino importante ou torneio com um teste, o treinador comunica com o professor e este remarca o teste com o aluno para outra altura.

CTT: É exigido aos alunos que tenham boas notas para continuarem a usufruir da bolsa? É possível ser um excelente atleta mas não ter resultados escolares?

RJ: Esta é uma das razões pela qual a NCAA limita os treinos a 4 horas diárias: para que os atletas tenham tempo para estudar e manter notas elevadas. No meu caso, preciso de manter uma média acima de 3.0 GPA (cerca de 16 em 20) para manter a bolsa académica. Se não mantiver estes resultados estou em risco de perder a bolsa. Isso não significa que tenha de sair da equipa, apenas tenho de sustentar as minhas despesas escolares. Por exemplo, a equipa de ténis ganha há 9 anos consecutivos a “Chancellor’s Cup”. Esta taça premeia os melhores alunos/atletas da universidade, os que têm melhores resultados académicos e escolares.

imagem1 entrevista

Imagem 1 - Quadro com os vencedores da “Chancellor’s Cup”


 

The American Adventure – Parte 2

Nesta segunda parte da entrevista ao nosso atleta Ricardo Jorge, agora a estudar e a treinar nos Estados Unidos, vamos procurar ficar a conhecer um pouco do modelo de competição, os métodos de treino e as infraestruturas disponíveis. Nas perguntas finais conheçam também as primeiras impressões do Ricardo sobre a realidade americana. Será assim tão diferente de Portugal?

CTT: Ricardo, a equipa onde estás é constituída sobretudo por atletas americanos?

RJ: Não, a equipa apenas tem um atleta americano. A equipa é composta por um americano, três suecos, um indiano, um inglês, um sul-africano e agora um português. O treinador principal é americano, o adjunto sueco e os assistentes, um é americano, o outro norueguês.

CTT: Como será a competição em que vais participar? É um campeonato ao nível do país? Ou existem, como em Portugal, competições regionais?

RJ: Existem várias competições. Neste semestre serão mais competições por equipas e no próximo mais individuais. Na minha primeira semana, a equipa disputou o acesso à fase final do campeonato indoor mas não conseguiu passar. Agora começou a temporada outdoor onde iremos jogar contra equipas dentro da nossa conferência que se chama SEC (Southeastern Conference) que é a conferência mais forte do país. Depois, as 16 equipas que tiverem a melhor percentagem entre vitórias/derrotas passarão à fase final do campeonato nacional.

CTT: Qual é a tua primeira análise aos atletas que encontraste na tua Universidade? Notaste que estão a um nível superior aos que defrontaste em Portugal? Têm alguma coisa, ao nível técnico e físico, que os distingue das características do teu jogo?

RJ: A este nível, todos apresentam níveis técnicos e físicos muito bons e não podem ter qualquer falha nesses aspetos. Contudo, existem algumas diferenças nas características de jogo. O meu estilo de jogo baseia-se à volta da minha direita pesada, do forte serviço e na consistência de fundo de court. Já os meus colegas têm um estilo diferente, com pancadas mais “chapadas”, mais rápidas e muitas subidas à rede, mais indicado para courts indoor. Em relação aos jogadores portugueses penso que a minha equipa está ao mesmo nível do top 10 português.

CTT: E, já agora, notas diferenças nas metodologias de treino que já conhecias? Achas que se diferenciam muito das que encontraste em Portugal?

RJ: Tive apenas ainda três semanas de treino mas até agora não encontrei grandes diferenças nas metodologias de treino que tive em Tavira. O treino técnico e físico é muito idêntico. Tem as suas diferenças porque cada treinador tem as suas ideias mas as bases são as mesmas. Em termos gerais, a maior diferença serão os pares. Em Portugal, o jogo de pares não é muito trabalhado porque não tem tanta importância quanto os singulares. Cá, pelo contrário, os pares têm tanta ou mais importância que os singulares.

CTT: Quanto às instalações da Universidade descreve-nos brevemente as características da mesma. O ténis é a modalidade “rainha” na Universidade? Ou há outros desportos?

As instalações são fantásticas! A universidade tem um campo de futebol americano que possui cerca de 70.000 lugares (do tamanho do Estádio da Luz) que enche sempre que a equipa lá joga.

O futebol americano é, sem dúvida, o desporto rei da universidade e do país. A arena de basketball tem cerca de 10.000 lugares e dos 3 jogos que fui ver, encheu sempre. Quer seja para o basebol, softball, atletismo ou até mesmo golfe existe um complexo/campo/estádio em excelentes condições.

O ténis tem um complexo outdoor com 8 courts de piso rápido, cada um com bancadas para mais ou menos 100 pessoas e balneários. Também tem um excelente complexo indoor mas mais pequeno, quer em bancadas, quer em courts (3 courts).

Courts Outdoor:

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Courts Indoor:

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Imagem retirada da Internet do Estádio de Futebol Americano (os jogos só começam no próximo semestre por isso não tenho fotos):

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Arena de Basketball:

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CTT: Tens uma ideia aproximada do número de estudantes da tua Universidade? É uma universidade de pequena dimensão?

RJ: Cerca de 17.000 estudantes. É o segundo maior campus do estado relativamente à quantidade de alunos. Em relação a todo o país, não tenho a certeza mas penso que é uma universidade de média/grande dimensão.

CTT: Estamos a terminar mas antes queria que nos falasses brevemente das tuas primeiras impressões sobre os Estados Unidos. Notaste muitas diferenças comparando com a realidade portuguesa? Como é que te receberam por seres de outro país? E a comida, muitas saudades da cozinha portuguesa?

RJ: Realmente notei bastantes diferenças. Os americanos têm de ser diferentes em tudo o que fazem. Todos os sistemas de medição, por exemplo, são diferentes, o que torna mais difícil entender coisas simples como quando me perguntam quanto meço ou peso. Até o fecho dos casacos é do lado contrário! Também fazem tudo em grande, quer seja barras de chocolate, café, bebidas, etc.

O preço das propinas também me surpreendeu. Em Ole Miss, por exemplo, cada ano escolar custa 36.000 dólares (nota: cerca de 26 mil euros)! Bem diferente de Portugal, o que mostra que a qualidade de vida é maior. Outro aspeto, que está relacionado com isto é que, provavelmente, 90% das pessoas nesta universidade têm um Iphone, quando os preços não são assim tão mais baixos.

Em termos culturais, os americanos são muito mais patriotas. Por exemplo, antes de cada jogo, qualquer que seja o desporto, toca sempre o hino nacional. Mas talvez o que mais me surpreendeu foi a forma como as pessoas de sexo oposto se cumprimentam. Pelos vistos, os tradicionais “dois beijinhos” não existem, apenas um aperto de mão ou um leve abraço.

Em relação à comida, já tenho muitas saudades… Um peixinho assado no “Três Palmeiras” (nota: restaurante em Tavira), os cozidos da minha avó, os bolos das minhas tias e basicamente tudo que os meus pais cozinham. Para explicar a comida americana nada melhor que esta foto:

imagem8 entrevista

CTT: Ricardo, chegámos ao fim da entrevista. Obrigado, mais uma vez, por nos contares o início desta tua aventura. Queres deixar alguma mensagem ou conselho para os jovens atletas do Clube de Ténis de Tavira que queiram seguir as tuas pisadas?

RJ: Mais uma vez, o prazer é todo meu! Gostava de congratular o Clube de Ténis de Tavira pelo excelente trabalho desenvolvido nos últimos 3/4 anos. O clube está a crescer cada vez mais e não tarda será um dos maiores clubes de Portugal. Penso que eu sou o exemplo número um desse crescimento: todas estas experiências que estou a passar foram graças ao trabalho desenvolvido pelo Clube de Ténis de Tavira e pelos seus técnicos. Em 2/3 anos, para além de melhor jogador (muito melhor), fazer parte desta família fez-me crescer como pessoa, tornou-me mais confiante, mais trabalhador e, sobretudo, mais feliz.

O meu conselho para os jovens atletas do Clube de Ténis de Tavira que queiram seguir uma carreira profissional, ou mesmo vir estudar para os EUA, é que continuem a treinar arduamente e para nunca deixarem os estudos para segundo plano. O clube pode não ter as melhores instalações do país mas a equipa técnica, a qualidade dos treinos e o espírito de clube é de outro mundo. O importante não é quem treina mais horas mas sim quem melhor aproveita essas horas.